Logo, não é coincidência que Pinochet teve a tarefa de suprimir uma
possível revolta da classe baixa. Seu regime veio ao poder depois que a CIA
destituiu o presidente socialista eleito democraticamente do Chile, Salvador
Allende, e Pinochet e seus “garotos de Chicago” tiveram a tarefa de proliferar
políticas neoliberais, apesar da larga oposição popular que essas políticas
tinham naturalmente se deparado. Como Margaret Thatcher disse a respeito do porquê
da classe capitalista global ter abraçado o neoliberalismo, “não existe
alternativa” –se essa austeridade radical e medidas de privatização não fossem
levadas adiante, a recessão dos anos 70 continuaria fazendo os lucros dos
capitalistas caírem, e todo o sistema potencialmente iria desabar. Se a classe
dominante queria manter seu poder, o neoliberalismo deveria ser concretizado de
qualquer forma.
Pelo julgamento de Pinochet e seus apoiadores na elite neoliberal e
imperialista, as coisas que as vítimas de seu regime suportaram seriam
meramente o custo de concretizar essa tarefa a fim de preservar a estrutura de
poder. O economista neoliberal Friedrich Hayek disse sobre Pinochet que é
possível para um “ditador governar de uma maneira liberal”, e que ele preferia
um “ditador liberal” do que “um governo democrático carente de liberalismo”.
Henry Kissinger disse sobre o regime de Pinochet que “eu penso que nós
devemos entender nossa política – que por mais desagradável que ela aja, o
governo é melhor para nós do que Allende foi. Logo, nós não deveríamos dar
suporte para movimentos contra eles meramente os desassociando”. É importante
compreender exatamente quais ações essas figuras estavam tolerando. Lux de las
Nieves Ayress Moreno, uma das pessoas presas pela polícia de Pinochet por se
opor ativamente ao regime, escreveu sobre suas experiências:
Eu estive em vários centros de detenção mas o que mais me lembro era
chamado Tejas Verdes… Assim foi como Pinochet me torturou: eles me tornaram
prisioneira com meu pai e meu irmão de quinze anos, Tato... foi uma operação
impressionante [e] eles nos levaram para uma casa onde o Serviço de
Inteligência Militar estava posicionado… eles me jogaram no chão coberto com
água e aplicaram disparos de eletricidade em todo o meu corpo, mas
especialmente os seios, vagina, ânus, olhos, boca, e pescoço... então eles
chamaram meu pai e começaram a torturá-lo na minha frente para que então eu
falasse, em todo esse tempo batendo em mim... então eles chamaram meu irmão e
fizeram aquilo mesmo com ele... eles puxaram meus mamilos e fizeram cortes com
facas e lâminas de barbear. Eles violaram minha vagina com suas mãos sujas,
garrafas, dedos, pedaços de pau, coisas feitas de metal, e depois novamente,
com choques elétricos. Eles me levaram para fora e pretendiam atirar em mim. Junto
com uma mulher que estava grávida de cinco meses, eu fui uma das prisioneiras
mais torturadas em Tejas Verdes… Eu fui deixada para morrer. Eu acredito que
muitas pessoas foram mortas em Tejas Verdes, mas eu não sei quantas, ou seus
nomes; eu era sempre incapaz de me comunicar.
Desde então, os EUA tentam se desassociar das atrocidades de Pinochet
enquanto que ao mesmo tempo, regularmente demonstram violência de um grau
similar. O governo de Bush expressou simpatia pelas vítimas de Pinochet,
entretanto criou um programa de tortura que consiste em afogamento, choques
elétricos em genitais masculinos, e até coisas piores; Fatima Boudchar escreveu
sobre sua experiência em um dos campos de concentração secretos da CIA: “Algumas
coisas que eles fizeram comigo naquela prisão eram tão repulsivas que eu nem
consigo falar sobre. Eles me acertavam no abdômen bem onde o bebê estava. Para
me mover, eles me amarravam numa maca da cabeça aos pés, como uma múmia. Eu
sabia que em breve eu seria morta.”
Práticas como afogamento foram desde então defendidas por Dick Cheney,
e de forma infame pelo colunista de extrema-direita do Wall Street Journal Bret Stephens. E os atos
mais extremos de punição física em prisioneiros durante a Guerra ao Terror
foram implicitamente perdoados pelo sistema de Washington. Gina Haspel, que
chefiava um dos campos de concentração secretos que faziam esses tipos de
atrocidades que Boudchar descreveu, tem sido então feita diretora da CIA pelo
governo Trump. Trump também tornou a delegada Billingslea Secretária Assistente
para o Financiamento Terrorista no Departamento do Tesouro dos EUA, mesmo que Billingslea
tenha facilitado os abusos aos direitos humanos da era Bush.
Assim como invadir países para avançar lucros de corporações,
encarcerando milhões de pessoas para o benefício dos complexos
industriais-prisões, ou matando pessoas negras para fortalecer o estado
policial, tortura serve uma função para a classe capitalista: para reprimir a
oposição. A introdução da tortura na política antiterrorista norte-americana
desde o 11/9, criou uma ameaça implícita à atores políticos cujo estado pode
decidir por considera-los “terroristas”. Isso se tornou aparente na tortura que
o delator Julian Assange recebeu quando estava preso em Belmarsh, a versão
britânica de Guantanamo.
Enquanto o império vai perdendo sua força no globo, e como o capitalismo
agora passa por sua pior crise desde o século passado, os métodos de Pinochet irão
continuar sendo mais sedutores para a classe dominante. Operação Condor, a
campanha norte-americana secreta de repressão pela América Latina que o regime
de Pinochet contribuiu, é agora repetida enquanto Washington prepara seu ataque
contra a esquerda latino-americana; as sanções genocidas dos EUA sobre a
Venezuela, o recente golpe na Bolívia que resultou numa limpeza étnica contra
populações indígenas, e as repressões norte-americanas violentas contra
opositores de estados neoliberais como Chile e Equador no ano passado
representam as crescentes reações da luta de classes.
A criação de esquadrões da morte legalmente impunes, assassinatos de
jornalistas críticos, e tortura daqueles que tentaram expor os crimes do golpe
de estado boliviano, prefiguram como as “democracias” capitalistas, como os
EUA, irão fomentar guerras de classes contra os pobres nos anos que virão. A
aparência imperialista de liberdade e justiça, que foi amplamente abandonada em
meio à Guerra ao Terror e a brutal repressão contra opositores recentes, irá
desaparecer completamente. O que irá restar será uma campanha de barbarismo
horrenda, vendida sob a retórica enganosa que Henry Kissinger usou em um artigo
desse ano: “As democracias do mundo precisam defender e sustentar seus valores
Iluministas... (e) salvaguardar os princípios da ordem mundial liberal.”
Para o governo Trump, cuja política o
próprio Kissinger ajudou a guiar, essa tarefa até o momento tem significado
atirar nos olhos dos manisfestantes, usar a polícia para atacar jornalistas em
protestos, e usar toques de recolher como armas para decretar violência contra
manifestantes pacíficos. A militarização da polícia, erosão das liberdades, e
aumento de abusos aos direitos que vêm ocorrendo através do mundo capitalista
mostram como a reação dessa classe dominante se estende bem além da América.
O caminho para a ditadura, no qual está
ocorrendo em países liderados por fascistas, como a India de Modi e o Brasil de
Bolsonaro, e que já chegou em sua conclusão na Hungria de Orban, revela o quão fácil
tem sido para muito mais ‘Pinochets’ ascenderem durante o capitalismo de
estágio avançado. Tudo o que está se desenrolando é uma série de desenvolvimentos
de desestabilizações -11/9, os dois grandes colapsos econômicos dos últimos
doze anos, a crise global do meio ambiente- que têm feito as ditaduras
aparentarem ser a melhor opção para a classe dominante.
Pinochet continua a ter apologistas pela mesma razão que os poderes
capitalistas cada vez mais emulam suas ações: aqueles que suportam a estrutura
do poder corrente, acreditam que qualquer ação que a preserve está correta. Se
não existe alternativa para a hegemonia capitalista, não existe alternativa
para quebrar os corpos daqueles que resistem.
(Traduzido de Rainer Shea, por Felipe Roubert.)
Link para texto original: https://medium.com/@rainershea612/the-bloody-horrors-of-pinochet-showed-how-capitalism-will-respond-when-its-threatened-e723fd1fb442
(Traduzido de Rainer Shea, por Felipe Roubert.)
Link para texto original: https://medium.com/@rainershea612/the-bloody-horrors-of-pinochet-showed-how-capitalism-will-respond-when-its-threatened-e723fd1fb442
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