quarta-feira, 1 de julho de 2020

O horror sangrento de Pinochet mostrou como o capitalismo irá responder quando ameaçado

A razão pela qual o regime de Pinochet torturou e matou dezenas de milhares de pessoas, e porque os admiradores modernos da extrema-direita glorificam suas ações, tem a ver com a psicologia do poder. Isto é, o desejo dos poderosos de afirmar seu poder sobre o grupo dominado. Quando num contexto dos poderosos rechaçando uma rebelião das classes baixas, esse desejo por decretar violência e crueldade com o fim de manter o controle para si é especialmente forte.


Logo, não é coincidência que Pinochet teve a tarefa de suprimir uma possível revolta da classe baixa. Seu regime veio ao poder depois que a CIA destituiu o presidente socialista eleito democraticamente do Chile, Salvador Allende, e Pinochet e seus “garotos de Chicago” tiveram a tarefa de proliferar políticas neoliberais, apesar da larga oposição popular que essas políticas tinham naturalmente se deparado. Como Margaret Thatcher disse a respeito do porquê da classe capitalista global ter abraçado o neoliberalismo, “não existe alternativa” –se essa austeridade radical e medidas de privatização não fossem levadas adiante, a recessão dos anos 70 continuaria fazendo os lucros dos capitalistas caírem, e todo o sistema potencialmente iria desabar. Se a classe dominante queria manter seu poder, o neoliberalismo deveria ser concretizado de qualquer forma.

Pelo julgamento de Pinochet e seus apoiadores na elite neoliberal e imperialista, as coisas que as vítimas de seu regime suportaram seriam meramente o custo de concretizar essa tarefa a fim de preservar a estrutura de poder. O economista neoliberal Friedrich Hayek disse sobre Pinochet que é possível para um “ditador governar de uma maneira liberal”, e que ele preferia um “ditador liberal” do que “um governo democrático carente de liberalismo”. Henry Kissinger disse sobre o regime de Pinochet que “eu penso que nós devemos entender nossa política – que por mais desagradável que ela aja, o governo é melhor para nós do que Allende foi. Logo, nós não deveríamos dar suporte para movimentos contra eles meramente os desassociando”. É importante compreender exatamente quais ações essas figuras estavam tolerando. Lux de las Nieves Ayress Moreno, uma das pessoas presas pela polícia de Pinochet por se opor ativamente ao regime, escreveu sobre suas experiências:

Eu estive em vários centros de detenção mas o que mais me lembro era chamado Tejas Verdes… Assim foi como Pinochet me torturou: eles me tornaram prisioneira com meu pai e meu irmão de quinze anos, Tato... foi uma operação impressionante [e] eles nos levaram para uma casa onde o Serviço de Inteligência Militar estava posicionado… eles me jogaram no chão coberto com água e aplicaram disparos de eletricidade em todo o meu corpo, mas especialmente os seios, vagina, ânus, olhos, boca, e pescoço... então eles chamaram meu pai e começaram a torturá-lo na minha frente para que então eu falasse, em todo esse tempo batendo em mim... então eles chamaram meu irmão e fizeram aquilo mesmo com ele... eles puxaram meus mamilos e fizeram cortes com facas e lâminas de barbear. Eles violaram minha vagina com suas mãos sujas, garrafas, dedos, pedaços de pau, coisas feitas de metal, e depois novamente, com choques elétricos. Eles me levaram para fora e pretendiam atirar em mim. Junto com uma mulher que estava grávida de cinco meses, eu fui uma das prisioneiras mais torturadas em Tejas Verdes… Eu fui deixada para morrer. Eu acredito que muitas pessoas foram mortas em Tejas Verdes, mas eu não sei quantas, ou seus nomes; eu era sempre incapaz de me comunicar.

Desde então, os EUA tentam se desassociar das atrocidades de Pinochet enquanto que ao mesmo tempo, regularmente demonstram violência de um grau similar. O governo de Bush expressou simpatia pelas vítimas de Pinochet, entretanto criou um programa de tortura que consiste em afogamento, choques elétricos em genitais masculinos, e até coisas piores; Fatima Boudchar escreveu sobre sua experiência em um dos campos de concentração secretos da CIA: “Algumas coisas que eles fizeram comigo naquela prisão eram tão repulsivas que eu nem consigo falar sobre. Eles me acertavam no abdômen bem onde o bebê estava. Para me mover, eles me amarravam numa maca da cabeça aos pés, como uma múmia. Eu sabia que em breve eu seria morta.”

Práticas como afogamento foram desde então defendidas por Dick Cheney, e de forma infame pelo colunista de extrema-direita do Wall Street Journal Bret Stephens. E os atos mais extremos de punição física em prisioneiros durante a Guerra ao Terror foram implicitamente perdoados pelo sistema de Washington. Gina Haspel, que chefiava um dos campos de concentração secretos que faziam esses tipos de atrocidades que Boudchar descreveu, tem sido então feita diretora da CIA pelo governo Trump. Trump também tornou a delegada Billingslea Secretária Assistente para o Financiamento Terrorista no Departamento do Tesouro dos EUA, mesmo que Billingslea tenha facilitado os abusos aos direitos humanos da era Bush.

Assim como invadir países para avançar lucros de corporações, encarcerando milhões de pessoas para o benefício dos complexos industriais-prisões, ou matando pessoas negras para fortalecer o estado policial, tortura serve uma função para a classe capitalista: para reprimir a oposição. A introdução da tortura na política antiterrorista norte-americana desde o 11/9, criou uma ameaça implícita à atores políticos cujo estado pode decidir por considera-los “terroristas”. Isso se tornou aparente na tortura que o delator Julian Assange recebeu quando estava preso em Belmarsh, a versão britânica de Guantanamo.

Enquanto o império vai perdendo sua força no globo, e como o capitalismo agora passa por sua pior crise desde o século passado, os métodos de Pinochet irão continuar sendo mais sedutores para a classe dominante. Operação Condor, a campanha norte-americana secreta de repressão pela América Latina que o regime de Pinochet contribuiu, é agora repetida enquanto Washington prepara seu ataque contra a esquerda latino-americana; as sanções genocidas dos EUA sobre a Venezuela, o recente golpe na Bolívia que resultou numa limpeza étnica contra populações indígenas, e as repressões norte-americanas violentas contra opositores de estados neoliberais como Chile e Equador no ano passado representam as crescentes reações da luta de classes.

A criação de esquadrões da morte legalmente impunes, assassinatos de jornalistas críticos, e tortura daqueles que tentaram expor os crimes do golpe de estado boliviano, prefiguram como as “democracias” capitalistas, como os EUA, irão fomentar guerras de classes contra os pobres nos anos que virão. A aparência imperialista de liberdade e justiça, que foi amplamente abandonada em meio à Guerra ao Terror e a brutal repressão contra opositores recentes, irá desaparecer completamente. O que irá restar será uma campanha de barbarismo horrenda, vendida sob a retórica enganosa que Henry Kissinger usou em um artigo desse ano: “As democracias do mundo precisam defender e sustentar seus valores Iluministas... (e) salvaguardar os princípios da ordem mundial liberal.”

Para o governo Trump, cuja política o próprio Kissinger ajudou a guiar, essa tarefa até o momento tem significado atirar nos olhos dos manisfestantes, usar a polícia para atacar jornalistas em protestos, e usar toques de recolher como armas para decretar violência contra manifestantes pacíficos. A militarização da polícia, erosão das liberdades, e aumento de abusos aos direitos que vêm ocorrendo através do mundo capitalista mostram como a reação dessa classe dominante se estende bem além da América.

O caminho para a ditadura, no qual está ocorrendo em países liderados por fascistas, como a India de Modi e o Brasil de Bolsonaro, e que já chegou em sua conclusão na Hungria de Orban, revela o quão fácil tem sido para muito mais ‘Pinochets’ ascenderem durante o capitalismo de estágio avançado. Tudo o que está se desenrolando é uma série de desenvolvimentos de desestabilizações -11/9, os dois grandes colapsos econômicos dos últimos doze anos, a crise global do meio ambiente- que têm feito as ditaduras aparentarem ser a melhor opção para a classe dominante.
Pinochet continua a ter apologistas pela mesma razão que os poderes capitalistas cada vez mais emulam suas ações: aqueles que suportam a estrutura do poder corrente, acreditam que qualquer ação que a preserve está correta. Se não existe alternativa para a hegemonia capitalista, não existe alternativa para quebrar os corpos daqueles que resistem.

(Traduzido de Rainer Shea, por Felipe Roubert.)

Link para texto original: https://medium.com/@rainershea612/the-bloody-horrors-of-pinochet-showed-how-capitalism-will-respond-when-its-threatened-e723fd1fb442

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